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Ele e ela tornaram o amor imprevisto

por alho_politicamente_incorreto, em 18.09.08

 

 
 
 
A inveja mora aqui
 
Orlando é um rapaz de proveniência humilde. Contido nos gestos e deliberadamente reservado nas palavras, desde cedo aprendeu a gerir o tempo. O que muitos sempre tiveram por uma irritante passividade, daquelas que indicia um temperamento avesso ao arrojo, mais não era do que a carapaça para uma racional perseverança, que projecta meticulosamente cada etapa da vida encarda como degrau naquela disputada escada com sentido ascendente.
Aos vinte e seis anos, com três irmãos dispersos pelo mundo, reflexo de um tempo em que o sucesso estava lá fora, Orlando soube optimizar o facto de em seu redor não ter a condicioná-lo elevadas expectativas. Às vezes, é bom que não se espere muito de nós porque, mais do que conter a pressão em níveis favoráveis, tem o condão de aumentar consideravelmente as possibilidades de surpreender quem nunca apostaria um chavo no dorsal que nos foi atribuído.
Filho de um pai militantemente alcoólico e irremediavelmente entregue ao perverso encanto de três maços de tabaco diários, este nosso amigo teve a almofadá-lo uma mãe desgastada pelo sacerdócio de, a todo o custo, defender a sua ninhada. Com singular engenho, que alguns adjectivariam de visionário, Orlando logrou licenciar-se em Contabilidade e Gestão. O seu reduzido, previsível e já largamente ultrapassado guarda-roupa faz antever um gestor pragmático. Nos últimos anos, os almoços e jantares alternavam entre a maçã e a banana e a banana e a maçã. Olhado pelos colegas de faculdade com um misto de pena e admiração, o “Landinho”, assim baptizado pelo amor de mãe, está longe de ser um caso de sucesso entre o sexo oposto. As casadoiras meninas que com ele se cruzaram nos entroncamentos da vida dividem-se entre o respeito pela serena humildade e a indiferença por quem não demonstra ter qualquer plastia que desfaça aquela aparência séria e tensa traduzida por duas mãos invariavelmente escondidas nos bolsos de uma já ruçada ganga.
Uma vez mais deixado à sua sorte, o novel gestor e contabilista não cessou de remeter curricula, de responder a anúncios de jornal e de comparecer a entrevistas onde, sem excepção, foi ironicamente excluído por excesso de habilitações. Como de habitual, a vida não lhe sorriu por dá cá aquela palha. Nasceu para viver com dificuldade e enfrentar a adversidade.
Um dia e quando se aprestava para recolher um daqueles periódicos de anúncios com distribuição gratuita, Orlando choca literalmente com Liliana, ex-colega de curso, filha de um bem sucedido casal de médicos mas, essencialmente, um “borracho” pejado de beleza e encanto. Absolutamente inesperado, o encontro reservaria estranhas revelações. Liliana estava ainda sem emprego e algo prostrada em razão de tantas dificuldades. Também ela almejava ingressar no mundo do trabalho para obter a sonhada independência financeira. Frustrada e até zangada com a vida, percebe ter em Orlando um cúmplice em tão denso infortúnio. Ele aparenta a serenidade de quem sabe que, mais tarde ou mais cedo, contornará os obstáculos. E isso dá-lhe alento. Trocaram lamentos, ofereceram sorrisos e registaram contactos.
Um mês depois, decidiam aventurar-se na fundação de um negócio de acolhimento nocturno de crianças para que jovens pais possam desfrutar de noites mágicas sem as inoportunas interrupções dos pequenos. Orlando conseguira cativar a confiança dos progenitores de Liliana que até avançaram com a “massa”. Tudo tem corrido bem e a mudança de instalações está para breve. O negócio cresceu. Ele já adquiriu o seu primeiro carro, veste bem melhor e até se consta que se entregou nos braços da enleante “Lili”.
Os que o conhecem desde pequeno menosprezam o sucesso. O rapaz calado e tímido assim se mantém. Mas agora acusam-no de arrogante. “Está melhor na vida e já nem cumprimenta as pessoas!...” – dizem. Não gostam da cor do carro, “verde tropa”, que “está a cair podre de velho” e especulam que a sua ligação à doce Liliana mais não será do que “o golpe do baú”. Num ápice, Orlando deixou de ser um rapaz trabalhador e humilde. É o alvo preferido da coscuvilhice feita em surdina e da avareza que não suporta o bem-estar alheio. “Como é que aquela rapariga se interessou por um tipo daqueles?!” – inquerem, perplexas, as beatas solteironas da rua que, em tempos, chegou a ter pena do agora apoucado “senhor doutor”. Há quem vaticine que “não vai ser preciso esperar muito. Quanto mais alto se sobe, maior é a queda!”
Uma vez invejosos, para sempre invejosos. Mais do que uma religião, a inveja passou a ser o alimento daquela gente frustrada e incapaz. “Landinho” percebeu isso e sente-se estranhamente motivado. Em jeito de graça, sempre que leva Liliana até casa ver a mãe, previne: “tem cuidado! A inveja mora aqui…”
  José Manuel Alho
 

 

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